Tribuna do Interior

Tocantins, Sexta-feira, 24 de setembro de 2021.
30/08/2021 - 18h02m

Carlesse: "Hoje, se eu quiser, elejo até um poste para governador"

*Por Goianyr Barbosa 
Foto: Divulgação Acervo Pessoal

Lá no alto e galante Jalapão, na formosa São Félix, arranchado no seu vasto fazendão, diga-se, a perder de vista, cercado de amigos e de puxa-sacos, sob arvoredos nos quais uma grande quantidade de araras, papagaios, quatis, tucanos, bem-te-vis e outras espécies festejam o que ainda sobram de matas, embriagado na mais bruta cachaça, ao som de Leonardo e Amado Batista, devorando um frango cozido na cabaça de uma melancia, o governador Mauro Carlesse rebelou-se contra a lógica natural das coisas e, sonhando em obrar milagres, proferiu, para espanto dos participantes, a seguinte soberba: "Se eu quiser, meus amigos, hoje elejo um poste para governador". Segundo um presente que testemunhou a vanglória, apenas um secretário bateu palmas à verborragia carlessiana, enquanto o restante ficou pasmo, de alma imobilizada sem compreender bem aquela expressão caótica, apesar de o governador encontrar-se, naquelas horas, inebriado com a ingestão de várias doses de uma bebida que já fez muito sucesso nessas plagas – a derribadeira Chora Rita. Ora, o sábio rei Salomão, em Provérbios 16:18, afirma de maneira categórica e cristalina, que "A soberba precede a ruína, e a altivez de espírito, a queda". Não são poucos os políticos que têm sido atropelados na caminhada política, ao abandonar os calçados da humildade e, encastelados no poder, deixarem a soberba disseminar pelo corpo inteiro.

Um dos casos mais notáveis aconteceu na disputa pela prefeitura de São Paulo, em 1985, entre Fernando Henrique e Jânio Quadros. Perguntado pelo jornalista Boris Casoy se acredita em Deus, Fernando Henrique se hesitou e não respondeu. A história da sua derrota começava ali. O segundo episódio ocorreu um dia antes da eleição, quando ele sentou e se deixou fotografar na cadeira de prefeito, se julgando já eleito; sua derrota foi acachapante. Em 98, no primeiro confronto entre Iris Rezende e Marconi Perillo, quando Iris soube que disputaria a eleição com um quase desconhecido e ainda moço, fez um desprezo semelhante ao relato bíblico de Golias para com Davi, provocando se a oposição em Goiás não dispunha de nomes competitivos para enfrentá-lo. Para muitos, a derrota de Iris naquela ocasião foi uma punição ao seu egocentrismo exacerbado. Por aqui, na disputa de 2010, entre o governador Carlos Gaguim e Siqueira Campos, Gaguim deixou muitas vezes de ouvir o seu marketing político de campanha, tomou decisões por conta própria, abusou da teimosia e o resultado foi a volta de Siqueira ao governo. Já na eleição de 2014, o governador Sandoval Cardoso foi derrotado nas urnas pelo ex-governador Marcelo Miranda. Quem estava participando do staff de campanha de Sandoval, afirma que ele deixou de lado os marqueteiros contratados e passou a ouvir somente o seu cunhado, Kaká Nogueira, em todas as tomadas de decisões políticas. Em suma, o resultado foi catastrófico, mesmo com as chaves do poder em suas mãos, saboreou o pó da derrota.

Desgastado e agora odiado

Pois bem, voltando ao poste, que no caso em questão seria o secretário da Fazenda, Sandro Henrique, muitas pessoas do meio político não acreditam, porém, que o governador esteja falando sério, visto que o seu governo encontra-se visivelmente degastado e reprovado pelo eleitor tocantinense, desde o extremo Bico ao cobiçado Jalapão, este um dos seus locais preferidos para as farras e encontros. Aliás, a colocação infeliz e inoportuna do governador, imaginando o eleitor tocantinense como um tolo, um animal tocado, encabrestado por seu dono está completamente em descompasso com o histórico de resistência e vitória desse altaneiro povo. De modo que, essa aposta profética é cega, sem nenhum raio de luz, pois aqui, nesse pedaço batizado de coração do Brasil, repito, está a mais bela das façanhas e atos heróicos de um povo, que durante séculos lutou desassombradamente até conquistar a sua liberdade e independência, na celebrada criação do Estado do Tocantins. Portanto, brincar e duvidar de um povo assim, com certeza representa riscos de muitos sepultarem suas carreiras políticas. Nesse sentido, se não bastasse os sérios desgastes nas áreas da saúde, estradas em muitas localidades sem condições de tráfego normal, agora se aventura em privatizar os parques estaduais, colocando-os nas mãos da iniciativa privada ou da "iniciativa particular de amigos", sendo mais claro, e, desta forma, causando revolta na sociedade tocantinense.

Afinal, a faísca da discórdia por parte dos jalapoeiros, por conta da privatização do Parque, bem como pela sociedade tocantinense, reside na forma como o processo está sendo conduzido; na verdade sem transparência alguma e na ligeireza como os encaminhamentos se sucederam. Quem conhece a cidade de Mateiros, por exemplo, sabe que a cidade carece de asfaltamento, urbanização de praças, hospitais equipados com médicos em várias especialidades, pois, afinal, são centenas de turistas do Brasil e do exterior que visitam o município à procura das dunas, fervedouros, comunidades quilombolas entre outros atrativos, Ora, em relação a isto, o governo nunca estendeu a mão pública para ser parceiro do município. Quando moradores e turistas são acidentados ou acometidos de enfermidades, o prefeito Joãozinho tem que se virar, realizar fretamento de aeronaves a fim de retirar os pacientes, pois, de ambulância, é impossível percorrer as estradas sempre precárias e longínquas até Porto ou Palmas. Pergunta-se: se o governo Carlesse manteve-se distante dos problemas dessa gente, ao longo do seu governo, como é que agora, de maneira lépida, se interessou em conceder o Parque à iniciativa privada, fugindo de uma discussão mais aprofundada? Erigir dentro dessa área, rede hoteleira, centros esportivos e de diversão será desviar o turista do caminho original e deixar os empreendimentos da cidade, como, por exemplo, pousadas, restaurantes, comércio, dentre outros, praticamente estagnados, às moscas.

Turismo com foco desviado

Não há, neste governo, uma política séria de fomento ao turismo integrado para o Jalapão. Neste aspécto, basta ver a construção de um aeroporto na cidade de São Félix, com recursos advindos do governo federal, cuja localidade vem sendo duramente questionada por autoridades, moradores da região e por turistas. É justamente na cidade de Mateiros que se encontra as dunas (cartões-postais do Jalapão), fervedouros, as comunidades primitivas descendentes de escravos e outras belezas naturais, além do número de turistas vistantes ser gigantescamente maior que os turistas que visitam São Félix. Novamente a pergunta ressurge: por que, então, o aeroporto em São Félix, quando em Mateiros até a pista de pouso já se encontra liberada, cercada, ainda nos tempos em que a ex-ministra Marina Silva, através de estudos, comandava o Turismo? Pois bem, será que as fazendas do governador e de alguns de seus secretários na região de São Félix pesou nesta intempestiva iniciativa? Com o povo a resposta. Por outro lado, é também perceptível que a aprovação da concessão do Parque pela grande maioria dos deputados não levou em conta os riscos de um impacto sócioambiental na região, tais como: diminuição dos mananciais hídricos, extinção das espécies, erosões, poluição, degradação das matas ciliares de riachos e rios, além das consequências negativas para as cadeias produtivas, nas quais se encontram as pessoas de baixo poder aquisitivo.

Por fim, o futuro do Jalapão está em jogo. O apelo que ecoa do povo mateirense é no sentido de que governo e autoridades, mal-intencionados, deixem-nos em paz, e o seu Parque Estadual de 34 mil km², no qual residem as dunas, rios, riachos, ribeirões, nascentes de águas, serras, fauna e flora.

*Goianyr Barbosa é jornalista e consultor político

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